CLIQUE AQUI para pedir seu livro GEOGLIFOS GAÚCHOS com frete grátis* pra todo o Brasil

CLIQUE AQUI para pedir seu livro GEOGLIFOS GAÚCHOS com frete grátis* pra todo o Brasil
R$ 29,90 cada -*Informe-se sobre as condições da promoção - www.facebook.com/geoglifosgauchos

terça-feira, 19 de outubro de 2010

1913-1942 O terreno de Francisco de Paula Farias - vizinho da Baronesa


A marca vermelha representa a extensão do terreno original de Francisco de Paula Farias, e a área arborizada é o atual Parque da Baronesa

Conversando com um dos netos de Francisco de Paula Farias, obtive informações sobre o terreno existente na esquina da Domingos de Almeida com a São Francisco de Paula. Segundo Antônio Farias, filho de Reinaldo Farias, borracheiro aposentado e morador da atual esquina da Rafael Pinto Bandeira com a São Francisco de Paula, aquele mesmo lote foi parte do antigo terreno de seu avô Francisco de Paula Farias. Segundo ele, o campo original ia da via principal do bairro Areal até alguns metros depois do cruzamento da São Francisco com a rua Rafael Pinto Bandeira, onde hoje existe a loja de autopeças "Castelhano".
 
Velha casa localizada no antigo terreno de Francisco de Paula Farias (Foto de Bruno Farias)
É possível afirmar baseado nas fontes encontradas até então que, em algum ano anterior a 1914, uma pequena parte da antiga propriedade de Domingos José de Almeida passou a ser propriedade de Domingas Farias e Francisco de Paula Farias, já que ele é mencionado como proprietário em diferentes documentos emitidos pelo menos entre 1914 e 2011.

Certidão do Cartório de Registro de Imóveis datada de 1955, reproduzida em 2011 (Foto de Bruno Farias)

Um outro documento, localizado no Cartório do Registro de Imóveis de Pelotas, comprova que Francisco de Paula Farias herdou o terreno de Domingas juntamente com os quatro filhos do casal: Francisco Vicente, Francisca, Reinaldo e Osvaldo Farias). Sabe-se a partir de outros documentos que, mais tarde, um filho do segundo casamento de Francisco chamado Bruno Timóteo Pires Farias conseguiu obter judicialmente 25% do terreno.


De acordo com o mapa 36 e a página 150 do livro "Negros, charqueadas & olarias", de Ester Gutierrez, muito antes disso a propriedade fez parte do terreno de Elias Pereira da Silva, vendido em 07/07/1828 pelo herdeiro Bernardo Pereira da Silva a Domingos José de Almeida. Este faleceu em 1871 sem deixar testamento: "O processo de divisão de seus bens foi terminado 90 anos depois" escreveu Ester.
No casamento de Francisco de Paula Farias e Domingas Farias, Bernardino Bráulio Barcellos de Almeida assinou no lugar da noiva (Foto de Bruno Farias - Registro de casamento de 1891 do Cartório Dunas, em Pelotas/RS)
Um filho de Domingos José de Almeida chamado Bernardino Bráulio Barcellos de Almeida, irmão de Junius Brutus Cássio de Almeida, assinou o registro de casamento de Domingas e Francisco - portanto acredita-se que o imóvel tenha sido passado diretamente daquela família para os Farias, com certeza entre 1891 e 1913.

Mapa 29 do livro "Negros, charqueadas & olarias" mostra as diversas propriedades dos Barcellos (Ester Gutierrez)

As famílias Barcellos e de Almeida eram proprietárias de diferentes estabelecimentos saladeiris e de vários terrenos na beira do Rio Pelotas durante a época das charqueadas. Portanto acredita-se também que Francisco de Paula Farias tenha trabalhado nas fábricas de charque dessa mesma família, entre outras.
Charqueada de Junius Brutus Cássio de Almeida

O filho de Domingos de Almeida, Junius Brutus Cassio de Almeida, também charqueador, faleceu em 1918. Conforme afirma Berenice Corsetti em sua dissertação de Mestrado em História "Estudo da charqueada escravista gaúcha no século XIX" (UFF, 1983): "Junius Brutus Cássio de Almeida gastou quatrocentos contos de réis remodelando a sua charqueada. Importou máquinas e técnicos da Itália, trouxe quarenta operários especializados de Montevidéu e passou a produzir de acordo com o 'sistema platino´. A própria Princesa Isabel teria visitado o estabelecimento e presenciado uma rês ser desmanchada em cinco minutos por um carneador uruguaio",(Niterói- RJ, 1983. Dissertação de Mestrado em História - Departamento de História, UFF).

No encontro da Estrada de Cima com o Corredor das Tropas, as atuais avenidas Domingos de Almeida e São Francisco de Paula, ficavam as terras de Elias Pereira da Silva, vendidas em 1828 a Domingos José de Almeida. Antes de 1913 uma parte do campo passou a pertencer a Domingas Vicência da Conceição, tendo sido herdada por seu viúvo Francisco de Paula Farias e pelos filhos do casal. A referida propriedade está marcada em vermelho (Detalhe do mapa 36 do livro "Negros, charqueadas & olarias", de Ester Gutierrez)

Vizinhos contam que a velha casa existente hoje no terreno mais tarde foi sede de um bolicho. Segundo o historiador uruguaio Aníbal Barrios Pintos, os bolichos ou bodegas (chamados lá de "pulperías") eram estabelecimentos comerciais que serviam como hospedaria (muitas vezes com curral, para as tropas de animais trazidos a pé); bar (onde se consumiam comidas e bebidas); mercado (onde se compravam e vendiam produtos em geral); centro de lazer (sediando jogos, carreiras, brigas de galo, etc); e até como "prestamista" (guardava dinheiro de terceiros e o emprestava a juros quase sempre abusivos).

A Pulperia (bolicho). (Jean León Palliere, Campaña de Buenos Aires, 1858).
As pulperías mais antigas costumavam ser construções sólidas e bem fechadas, com grades nas portas e janelas. Mas a velha casa não tem grades, possivelmente pela venda ter funcionado ali na década de 1960 aproximadamente, como contou o vizinho Sélvio Silveira, de 72 anos, morador da Vila Mozart. Ele mora em Pelotas desde que tinha 19 anos, em 1950, e lembra que um senhor de nome "Crespo" a utilizava como armazém de campanha e bar. Na época, segundo ele, a Av. São Francisco de Paula ainda era chamada pelos moradores de "Corredor das Tropas", sendo ainda um enorme valão com barrancos altos. Também de acordo com o idoso, a via foi calçada no "Plano Curi", no primeiro mandato do então prefeito Irajá Andara Rodrigues (1977-1981).

Pintura de Jean León Palliére (Argentina, meados do século XIX)

Segundo os idosos Lacy dos Santos Farias (viúva de Saul Portella Farias, filho de Osvaldo Farias e Aurora Portella Farias e um dos netos de Francisco de Paula Farias e Domingas Farias), de 80 anos, a velha casa foi alugada por Francisco Vicente Farias (irmão de Osvaldo e filho de Francisco de Paula e Domingas Farias) para um homem de apelido "Marreta" - pessoa que usava o prédio como armazém de campanha e bolicho.
    (1 e 2) A palmeira no terreno de Francisco de Paula Farias antes e depois de se quebrar pela metade; (3) uma outra árvore da mesma espécie na casa vizinha, para a qual Antônio Farias apontou ao demonstrar a altura da outra palmeira à volta da qual ele e o primo Saul Portella Farias brincavam quando ainda eram crianças (Fotos de Bruno Farias)
    A palmeira à volta da qual meu avô Saul Portella Farias e seu primo Antônio Farias brincavam, e da qual hoje resta apenas um pedaço, teria mais que 80 anos. De acordo com Antônio Farias, ela já era bem alta há 8 décadas: "Quando eu era pequeno, ela já era alta como hoje é aquela ali" recorda apontando para a planta existente na moradia ao lado, com a altura de uma casa de 2 andares.

    Uma parte do terreno original de Francisco de Paula Farias, com frente para a avenida Domingos de Almeida e ao lado do atual estacionamento da loja Krause (Foto de Bruno Farias)
     
    A casa antiga que ainda existe na parte do terreno com frente pra Domingos de Almeida foi tomada há mais de 20 anos por posseiros que ali permanecem até hoje, tendo abandonado a construção e se mudado para casas de madeira atrás desta após o falecimento do posseiro original, de apelido "Índio". A velha moradia, que está prestes com parte do telhado desmoronando e cujos posseiros acreditam ter também mais de 200 anos, é feita de tijolos colados com barro, vigas de madeira de lei do tipo "angica" falquejadas a machado e telhas antiquíssimas, num perfeito e raríssimo exemplo de construção vernacular - ou seja, feita com técnicas e materiais provenientes do próprio local.

     A velha casa que pertenceu a Francisco de Paula Farias, de chão batido, tijolos colados com barro, vigas e aberturas de madeira e telhas moldadas nas coxas, possivelmente de escravos (Fotos de Bruno Farias)

    Porém a moradia onde eles viveram nos últimos anos da vida de "Chico Brasileiro", segundo seu bisneto Paulo Farias (filho de Antônio Farias,  neto de Reinaldo Farias e bisneto de Francisco de Paula Farias), já ruiu. Ficava ao lado desta, e eu tive a oportunidade de ver suas fundações há alguns anos, antes de serem cobertas pela vegetação. Apesar de que ainda é possível encontrar vestígios da velha construção no chão do terreno.
    A coluna de tijolos que restou no limite do terreno de Francisco de Paula Farias e família (Foto de Bruno Farias).

    O que restou no local da última moradia de Francisco de Paula Farias, segundo outro de seus descendentes, o mecânico Paulo Farias (filho de Antônio), foram alguns tijolos (hoje cobertos de terra e vegetação, os mesmos que eu cheguei a ver). Ainda existe uma coluna de tijolos no limite do terreno, à frente da antiga construção. Do mesmo ponto se pode ver a casa da Baronesa e do Barão dos Três Cerros, local onde hoje existe o Museu da Baronesa.

    A casa da Baronesa vista do topo da velha coluna (Foto de Bruno Farias). 

    Abaixo seguem alguns documentos antigos relacionados ao terreno vizinho ao de Francisco de Paula Farias, que o mencionam como proprietário do terreno limítrofe.



    O primeiro é de 1922, lavrado à mão, referente à venda e nele consta que a propriedade ao lado, na Domingos de Almeida, foi vendida por Francisco Alves de Carvalho e esposa a Joanna da Silva. O terreno limitava-se: "...ao norte com os vendedores [Francisco Alves de Carvalho e sua mulher] e ao Sul e a Oeste com Francisco Farias, immovel esse que foi havido por compra feita em hasta(?) pública de Thereza Zita, conforme carta de arrematação...".



    O segundo documento, também referente à mesma propriedade vizinha e emitido em 1932, registra que "dividindo-se ao norte com os vendedores e ao sul e oeste com Francisco Farias..."

    * Atualizado em 05/12/2011

    VEJA TAMBÉM:

     1891

    Um comentário:

    1. Cadê os órgãos de patrimônio da prefeitura????

      ResponderExcluir