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domingo, 10 de outubro de 2010

Osvaldo Farias e Aurora Portella

Osvaldo Farias e sua esposa Aurora
Portella tiveram 15 filhos
Osvaldo Farias (1900-1972), um dos quatro filhos de Francisco de Paula Farias e Anna Domingas Vicência da Conceição, foi proprietário de um dos estabelecimentos que continuaram a produzir charque artesanalmente no sul do Estado mesmo após perderem mercado para os frigoríficos - avanço que chegou à cidade na década de 1910. Junto à abolição da escravatura e à construção em 1884 de uma ferrovia por onde o produto, vindo de outros municípios, chegava ao porto de Rio Grande, esse foi um dos fatores responsáveis pelo fim da era de ouro das charqueadas pelotenses. Em 1918, existiam apenas cinco estabelecimentos desse tipo em Pelotas.

Serrote de 1,20 m usado por
Osvaldo Farias para cortar as
carcaças dos bois inteiras

Com sua esposa Aurora Portella (1906-1953), nascida na Estrada do Passo dos Carros e filha de Cupertino e de Belenira Barbosa Portella, Osvaldo deu origem a 15 filhos. Após um tempo morando em Cachoeira do Sul/RS, onde nasceu sua filha mais velha, Suely, o ex-tropeiro e sua esposa se mudaram para Cerrito/RS, onde abriram uma salsicharia na qual eram abatidas 15 vacas por semana. Estimando 200 kg para cada cabeça de gado vacum, calcula-se que nesse intervalo de tempo eram processadas aproximadamente três toneladas de carne, por volta de 500 kg por dia. No local eram produzidos de forma artesanal não só o charque como também os famosos embutidos que renderam ao dono da indústria o apelido de “Osvaldo Salameiro”.

Utilizando as habilidades herdadas do pai Francisco de Paula Farias, trabalhador nas charqueadas de Pelotas, ele fornecia produtos como salame, queijo de porco, morcilha, salsichão e charque – conforme conta o pecuarista aposentado Tito Ferro, de 83 anos, vizinho dos Farias durante sua infância: “Todo mundo gostava dos embutidos do Osvaldo Salameiro. Eles eram muito caprichosos” recorda. Tudo isso sem a utilização de refrigeradores: “Algumas partes da vaca, como o mondongo, eram jogadas fora” relembra Osvaldo Portella Farias, filho de Osvaldo e neto de Francisco de Paula Farias.

A estação de Cerrito, c. 2002. (Foto do livro Patrimônio Ferroviário do Rio Grande do Sul, IPHAE, p. 218)


 Um sobrinho de Osvaldo Farias, filho do famoso tio Nato e neto de Francisco de Paula, chamado Antônio Farias, conta que a produção da indústria era vendida não só pros moradores como também para os passageiros do trem que parava na estação existente na localidade: "Eles iam de carroça cheia até a linha do trem e vendiam tudo rapidinho" recorda Antônio Farias, que vive até hoje com sua sua família numa parte do terreno de seu avô, Francisco de Paula Farias, na esquina da Av. São Francisco de Paula com a Rafael Pinto Bandeira.

Osvaldo Farias, pouco antes
de seu falecimento; sua
segunda esposa Paulina e
seu neto Paulo Farias Barros
Segundo Irene Portella Farias, uma queda nos lucros fez com que seus pais Osvaldo e Aurora retornassem a Pelotas por volta de 1950 e abrissem um abatedouro e uma rede com três açougues. “Nessa época nós ainda pegamos algumas geladeiras refrigeradas com barras de gelo” conta Flávio Portella Farias, irmão de Irene. O local onde as reses eram abatidas e cortadas era comandado pelo pai, e as casas de carne eram responsabilidade dos filhos.

O primeiro açougue, cujo atendente era Heitor Portella Farias, ficava na rua Professor Araújo, entre a Antônio dos Anjos e a Arthur Hameister. O segundo, administrado por Saul Portella Farias, era na esquina da Rafael Pinto Bandeira com a Félix da Cunha. E a terceira filial, em frente à Praça do Colono, era cuidada por Osvaldo Portella Farias. A rede familiar forneceu carne para muitos pelotenses, e seu proprietário vendia também sebo animal para a fábrica de sabão dos Lang - atividade que até hoje é o ganha-pão de Jorge Quintian, genro de Osvaldo Farias.

Antigo açougue de Saul Portella Farias,
na Praia do Laranjal 
Osvaldo Farias faleceu em 1972. Mas seus filhos, netos de Francisco de Paula Farias, continuaram lidando com animais até pouco tempo atrás. Podemos citar como exemplo Saul Portella Farias, criador de gado, açougueiro e pai do também comerciante de carnes Ezaul dos Santos Farias, falecidos em 1995 e 1997. E, também in memoriam, o pecuarista e produtor de couros Francisco de Assis Portella Farias, que morreu no ano de 2010.

           Mas os conhecimentos do trabalhador das charqueadas “Chico Brasileiro” e de seu filho “Osvaldo Salameiro” permanecem vivos entre seus descendentes. Além de Jorge Quintian, casado com a falecida Teresinha, filha de Aurora Portella e Osvaldo Farias, há também os irmãos dela. Heitor e Osvaldo Portella Farias, a exemplo do pai e do falecido irmão Saul, antigamente trabalhavam nos açougues do pai e ainda se recordam das técnicas de lida com o gado, abate, corte e beneficiamento da carne usadas durante tantos anos por seus antepassados.

Acima: Francisco de Assis Portella Farias,
Saul Portella Farias e seu filho Ezaul.
Abaixo: Jorge Quintian, Flávio Portella
Farias e Osvaldo Portella Farias

Flávio Roberto Portella Farias, ex-proprietário de uma tenda de couros, continua sendo um profundo conhecedor da lida com animais e é outro que frequentemente repete as receitas herdadas dos mais velhos. Zaira Portella Farias ainda se recorda dos trejeitos do avô Francisco, e Irene Portella Farias, também filha de Osvaldo e neta de Francisco, ainda consome o charque feito em casa assim como era feito pelo pai, pelo avô e por seus irmãos. Conhecimentos esses que, felizmente, já estão sendo repassados para seus descendentes.

Ferro usado por Saul Portella
 Farias para marcar o gado
Originalmente, antes do advento da refrigeração, apenas os temperos e a defumação eram utilizados para a conservação da carne e dos embutidos - exemplos dessas técnicas são o salame, o queijo de porco, a morcilha e o charque. Entre outros produtos que, mesmo após a chegada dos frigoríficos em 1910, ainda eram produzidos à maneira das charqueadas setecentistas de Pelotas até a primeira metade do século XX. E que, ao contrário de muitos industrializados, se mantém próprios para consumo durante meses mesmo fora da geladeira. Um verdadeiro pedaço da história e da cultura gaúcha que ainda sobrevive, relutantemente, na era da globalização, das carnes embaladas a vácuo e dos conservantes químicos.

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