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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

1937: "Xarqueada" por Pedro Wayne



                                                 Pedro Wayne (Reprodução)

Reproduzo aqui trechos do trabalho de Maria Eunice Moreira "Charqueadas e Xarqueada: a vida saladeiril na província gaúcha" (PUCRS, 2007), baseado principalmente no livro "Xarqueada", de Pedro Wayne. A obra do escritor retrata o funcionamento de uma charqueada pelotense da década de 1930, e tanto as palavras dele como as de Maria Eunice fazem lembrar de fatos relacionados a Francisco de Paula Farias e também a Osvaldo Barros Farias.


"Armazém de charque" retrata uma loja de carne charqueada mais de cem anos antes do lançamento do livro "Xarqueada" ( Jean Baptiste Debret) 



"Coube ao baiano Pedro Rubens de Freitas Wayne tematizar as mazelas vividas pela classe de operários saladeiris, num dos estabelecimentos econômicos mais representativos da vida pastoril gaúcha (...) foi morar em Pelotas, cidade onde permaneceu até 1927, quando se mudou para Bagé, como funcionário do antigo Banco Pelotense (...) pegou em armas em 1930, na arrancada de Vargas, conspirou na revolução de 1932 e, para escapar da prisão, foi trabalhar como guarda-livros na charqueada de seu sogro, onde atendia o bolicho que supria os empregados do “saladero”. (...) Xarqueada (...) enfoca a vida numa charqueada, no interior do Rio Grande do Sul, colocando em cena todos os protagonistas do universo saladeiril: o estancieiro, proprietário do estabelecimento, o capataz, chefe dos empregados, e os diferentes trabalhadores: matadores, salgadores, aguadeiros, bolicheiros, nas suas diferentes relações de poder e de afeto." O trabalhador das charqueadas pelotenses Francisco de Paula Farias desempenhava as funções de carneador e charqueador, conforme contam seus netos Osvaldinho Portella Farias e Irene Portella Farias. O carneador era quem tirava o couro do animal e cortava a carne, habilidade herdada de Francisco de Paula por seu filho Osvaldo Barros Farias, pai de Osvaldinho e Irene.
 


1913 - Seção de carneação da Charqueada Bela Vista, em Santana do Livramento
(www.ufrgs.br/nph/industria-e-trabalho-no-rio-grande-do-sul.html)

"(...) o tema central do romance gira em torno da experiência do guarda-livros que se torna líder dos trabalhadores saladeiris, o romance envolve um contingente de personagens e situações típicas de seus fazeres, permitindo uma observação dos processos dinâmicos do mundo rural rio-grandense, tomando como ponto privilegiado de observação o espaço da charqueada, base da economia gaúcha. (...) Os operários, por seu lado, eram referidos como robustos, sadios e ordeiros." Características herdadas do pai por Osvaldo Barros Farias, conforme conta Tito Gentillinni Ferro, que o conheceu pessoalmente e costumava ver de perto, na infância, o trabalho de "Osvaldo Salameiro" em sua salsicharia/charqueada na atual Cerrito/RS. Segundo o idoso, "eles eram muito caprichosos", além do que a habilidade de Osvaldo era admirável, desempenhada com uma força e uma destreza tremendas. 


Na tela "Saladero" (século XIX) são mostrados trabalhadores que, como Francisco de Paula Farias, carneavam e tiravam o couro dos animais manualmente (Jean León Palliere - Biblioteca Nacional da Argentina- ww.imagenshistoricas.blogspot.com/)

"(...) Antes de começar a jornada diária, azeitavam-se as máquinas, inspecionava-se o nível de sal dos tanques, taravamse as balanças, revisava-se a instalação elétrica, para o serviço noturno e afiavam-se as facas de dois gumes, colocando-as ao alcance da mão, para o rápido abate da rês. A labuta parece organizar-se observando uma certa ordem, em que cada empregado, colocado no seu devido lugar, transforma-se numa peça na engrenagem da “moderna” charqueada, como uma linha de montagem das fábricas robotizadas atuais. (...)" Irene Portella Farias conta que a habilidade de seu pai Osvaldo Barros Farias com a faca era tanta que, certa vez, ao ser atacado por um boi bravo, ele se colocou em frente ao animal em disparada e, com uma única e certeira estocada, o derrubou antes de ser atingido. De acordo com Tito Ferro, Osvaldo andava sempre com sua adaga, atravessada na cintura, na parte de trás da calça.


Saladeiro em Itaqui/RS, em 1900 - a foto mostra os peões trabalhando em um ambiente coberto, de calças arremangadas (http://www.imagenshistoricas.blogspot.com/)

"O serviço puxado, exigindo muita força muscular, cansava aqueles homens em jejum. O chão coberto d’água, que lhes tapava os pés, as vestes molhadas sobre a pele (WAYNE, 1982, p. 47-48)." Outro costume de "Osvaldo Salameiro", segundo Ferro, era andar sempre com a barra da calça arremangada. O abate de animais sempre envolveu muito sangue e, naturalmente, muita água para lavar as dependências do matadouro.

Saladero de Carne - Siglo XIX (Jean León Palliere - http://www.imagenshistoricas.blogspot.com/)

"Desde a hora em que começava a matança de gado, os empregados não podiam parar, a não ser por breves minutos para tomar água. A obrigação de eximir-se na atividade decorria da  necessidade de obter maior salário, quanto também de uma lei vigente entre os homens, que considerava fraco aquele que não agüentasse a jornada. Eles 'tinham que agüentar no duro, não só porque eram aqueles os dias com que contavam para ganhar uns cobrezinhos [...] como também para conservar o nome de bom peão.' " Sem dúvida Francisco de Paula Farias foi um bom peão, já que sua fama de homem honesto e trabalhador ecoa até os dias de hoje no bairro Areal, onde ele viveu e ganhou seus cobrezinhos - como carneador e charqueador em sua juventude, e como agricultor até falecer em 1941. Adão Garcia, morador da Av. São Francisco de Paula desde que ela era chamada de "Corredor das Tropas", nasceu 1 ano depois da morte de Chico Brasileiro e, mesmo assim, até hoje comenta sua honestidade, dizendo que para ele o que valia era o "fio de bigode".

"Pulpería", conhecida aqui como "bolicho" (Jean León Palliere - http://www.imagenshistoricas.blogspot.com/)

"(...) atividades idênticas eram cotadas de forma diferentes, definida pelas arbitrariedades do patrão que determinava os salários a serem atribuídos a cada empregado. A medida podia ter outra justificativa: além de ser um meio aparente para incentivar a produção, a política de diferenciação salarial visava também a regular o crédito do empregado junto ao bolicho. O bolicho era o lugar das compras, “financiadas” pelo charqueador, também dono desse pequeno armazém, de modo que o lucro da venda era também do mesmo patrão. Assim, o salário que o empregado deveria receber ao final da safra estava comprometido com as compras antecipadas, praticamente nada sobrandoUm bolicho foi onde Francisco de Paula Farias tirou um empréstimo para comprar o terreno no qual ele criou seus 10 filhos gerados com as 3 esposas que teve ao longo de sua vida. A dificuldade em saldar a dívida foi tamanha que parte do terreno foi retomada, e hoje sedia diferentes casas e estabelecimentos comerciais de diversos proprietários. Se este bolicho era ou não do mesmo dono da charqueada onde ele trabalhava (São João, acredita-se, na época de João Tamborindeguy), não se sabe. De qualquer forma, mesmo décadas após a assinatura da Lei Áurea, os peões das charqueadas continuavam sendo explorados - através do mesmo tipo de casa de comércio - até o limite entre a liberdade e a escravidão.

Fonte:
- MOREIRA, Maria Eunice. Charqueadas e Xarqueada: a vida saladeiril na província gaúcha. PUCRS, Porto Alegre, 2007.

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