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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Jorge Luís Stocker Júnior, delegado regional da OSCIP DEFENDER, fala da casa de Francisco de Paula Farias

A casa que pertenceu a Francisco de Paula Farias é um exemplo de
construção feita com técnicas vernaculares (Foto de Bruno Farias - 2010)

Jorge Luís Stocker Junior é estudante de arquitetura na universidade FEEVALE, estagiário no laboratório de Teoria e História da Arquitetura e Urbanismo da instituição e delegado regional da oscip DEFENDER no Vale do Sinos e encosta da Serra Gaúcha. Essa entidade com sede em Cachoeira do Sul (RS) promove a preservação do patrimônio e tem sócios espalhados pelo Rio Grande do Sul. 
Certidão de nascimento prova que
Francisco viveu ali pelo menos
desde 1914 (Foto de Bruno Farias)

Stocker, que é um destes sócios, viu pela internet as fotos da casa e demonstrou interesse pelas técnicas construtivas vernaculares (que utilizam materiais e recursos do próprio ambiente em que a edificação é construída) presentes na velha moradia que pertenceu a Francisco de Paula Farias pelo menos desde 1914. O procurei e realizei pela internet uma entrevista na qual ele fala da importância e da possibilidade de se incluir a antiga construção na lista de bens culturais tombados pelo município.

BF: Aquela casinha em ruínas fica na esquina do Museu da Baronesa. Pertenceu ao avô do meu avô, que era trabalhador das charqueadas. Tenho isso documentado aqui, cópias das certidões, etc. Eu queria saber se seria muito difícil pedir o tombamento dela, e o que precisaria pra isso.

JLSJ: Ela fica muito próxima ao museu da baronesa? Na lista dos bens do inventário não está.

BF: Na mesma esquina. O seu Francisco de Paula Farias também foi agricultor, inclusive os vizinhos mais antigos contam que ele vendia verduras à família da Baronesa, entre outras.

JLSJ: Acho possível sim, Ainda mais que tu tens essa documentação e pesquisa pronta. Acho que tem esse apelo de ser um tipo de residência ainda não protegido por nenhum tombamento, É possível identificar uso de técnicas construtivas vernaculares. É que infelizmente os tombamentos nem sempre seguem o que é mais importante ou não. Vão a critério de vontade política, ou as informações que estão à mão. Como tu tens a pesquisa pronta, acho que ajuda bastante, Teria que medir a temperatura do setor responsável pelo patrimônio. Eles precisam fazer levantamento arquitetônico e notificar os proprietários e o registro de imóveis etc, quando vão tombar. Acaba ficando condicionado a terem tempo e recursos humanos pra isso, Infelizmente em certos casos as prefeituras deixam os setores de patrimônio meio sucateados e sem verbas e pessoas.

BF: Até hoje o terreno esta no nome desse meu trisavô, e há posseiros no terreno. Imagino que isso complique um pouco...

JLSJ: Pra tombar o bem isolado sim, É determinado em lei que o proprietário precisa ser notificado.

BF: Parte do telhado está caindo. Madeiramento todo original, toras falquejadas a machado...

JLSJ: Então, 'teoricamente' a partir do momento em que a casa é listada como patrimônio cultural, a prefeitura precisa ajudar a não deixar cair e pelo menos escorar. O problema é conseguir este interesse do poder público. Acho que Pelotas tem muito o apelo da arquitetura exuberante do centro da cidade, e das grandes charqueadas no interior. Acabaram se descuidando desse tipo de construção que também é muito importante. Pelotas tem 1600 bens inventariados.

BF: É preciso entrar em contato com a prefeitura?

JLSJ: Eu tentaria falar com a coordenadoria de Memória e Patrimônio da secretaria de cultura. Primeiramente pra verificar se ela pelo menos não fica dentro do perímetro de entorno do Museu da Baronesa. É provável que fique, teria que ver qual entorno foi traçado. Se a casa é tão próxima isso é ótimo, pois hoje o entorno que contextualiza os bens tombados é bastante valorizado.

BF: Parte do telhado está vindo abaixo. Ainda é possível restaurar ou reformar? 

JLSJ: Havendo interesse sempre há como restaurar, até consolidar ruínas. Seria a questão de trocar as peças estruturais comprometidas.

BF: Estão aparecendo aí as fotos? Essa última é o canto do telhado que ficava escorado sobre o pilar caído.

JLSJ: Isso é bem reversível, Não tem nenhum segredo. O problema é o prédio estar sem cobertura, isso acelera muito a degradação. Se tivesse como evitar que chova para dentro, ajudaria bastante.

BF: Não estava assim há dois ou três anos, e foi caindo aos poucos. Era um buraquinho no começo... De fato ela está indo bem rápido depois que começou a cair. A cada ventania o buraco aumenta mais...

JLSJ: Se você conseguir desenrolar a questão da posse do imóvel, e inserir ela no inventário como patrimônio cultural, é meio caminho andado. Depois é possível pensar num projeto de restauração e até mesmo tentar financiar via patrocínio com a Lei de Incentivo à Cultura.

BF: E precisa desenrolar a questão da posse pra isso?

JLSJ: Pra protegê-la com inventário não. Mas pra pensar num projeto precisaria sim. Você tem a pesquisa pronta, pelo que vi, Primeiro, verifique se ela não é listada como entorno do museu. Se não for, tente inserir no inventário. O entorno do museu teria que ver com a prefeitura, Pode estar no entorno delimitado do museu, o tombamento é municipal também. O problema de ser tombamento municipal, e feito há tanto tempo atrás, é que dificilmente traçaram um entorno...

BF: Conta-se que esse meu trisavô vendia verduras, etc, pra família da baronesa e pra outros moradores. Há comprovação de que ele morava ali entre 1914 e 1941 pelo menos, e que antes disso foi trabalhador das charqueadas. E que o terreno, muito antes disso, pertenceu a Domingos de Almeida.

JLSJ: Essa parte histórica sempre ajuda bastante, mas também não é essencial porque tem o valor da materialidade do prédio, da técnica construtiva vernacular... De representar um tipo de construção ainda não representado oficialmente nos inventários, tombamentos e listagens de Pelotas...

BF: É muito raro ver esse tipo de construção assim tão inteira em área urbana?

JLSJ: Depende do lugar. Acho que em Pelotas é bem raro, pelo que conheço.

BF: E tem como dizer uma idade aproximada?

JLSJ: Com certeza não, mas parece ser de mil oitocentos e alguma coisa. O interessante dela é ser uma construção vernacular, ou seja, espontânea, não erudita. Demonstra técnicas construtivas e soluções próprias do local, com materiais locais numa cidade onde até hoje só se valoriza o erudito e o eclético, Acho que é um exemplar significativo, independentemente da data que foi construída.

BF: Você viu as telhas? Naquela época elas eram mesmo moldadas na coxa dos escravos?

JLSJ: Não sei te dizer, essa história de telha nas coxas boa parte é lenda.

BF: Será do tempo dos escravos mesmo?

JLSJ: Olha, eu acho que sim. Tem cara do que se fazia no geral pelo povo até a chegada das estações de trem.

Entrevista, fotos e edição: Bruno Farias
Imagem orbital: Google

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